22.2.06

#1 Apenas um gato

Descobri ao longo dos últimos 12 anos que estar na estrada é algo viciante! Como uma droga mesmo... você acaba e já começa a pensar no dia seguinte em quando e como fará pra viver aquilo pelo menos mais uma vez. Até aqui tive por diversas vezes muitas dúvidas quanto ao rock e algumas certezas. Creio até que menos certezas do que dúvidas. Mas sem dúvida, a maior delas é a certeza da satisfação e do prazer dos dias em que vivi na estrada “quicando” numa van de uma cidade pra outra, de um estado pra outro, vendo faixas brancas e amarelas passarem. Ver faixas brancas passarem à noite iluminadas pelo farol ouvindo Bob Dylan no Walkman foi uma das experiências mais poderosas que já vivi! E sei também que pode ser um dos maiores tormentos para aqueles que não gostam da estrada.

No ano passado embarquei no mês de outubro, ao lado dos Magaivers de Curitiba para fazermos juntos a Oh Lhoooco Tour! Um projeto meio psicótico que passou inclusive pela discussão de quantos “os” teria a palavra Oh Lhoooco (Risos). E pior do que isso, sempre que escrevíamos a palavra em emails, ou nas trocentas linhas de msn que se troca quando se trabalha num projeto desses, escrevíamos da forma acordada. A curtição passa sempre pelos mínimos detalhes. Afinal de contas, shows tem vida própria. Quem toca sabe disso. E isso não é apenas “previlégio” de bandas indies , até as unanimidades esbarram com os dias negros na estrada. Extrair prazer apenas do momento do show pode ser fatal quando se está na estrada. O segredo está justamente em viver a infinidade de pequenos grandes momentos que você esbarra por aí. E foi com esse espírito que cheguei em Curitiba – vindo de uma tour no Nordeste com o CARBONA - para ensaiar com minha banda que seria formada pelo Rodrigo e Ivan, ambos do Magaivers e enfrentaria 15 shows sem ao menos existir. Cheguei numa segunda sem banda e já na sexta, sairía pelo sul do país para uma seqüência de 15 shows!

A sexta chegou e dia após dia fomos cumprindo nossa grade de shows. Depois de 8 anos me vi tocando a mais dura e igualmente divertida tour dos meus anos de rock. As duas bandas totalizavam quatro integrantes. Isso nos possibilitou ( como se tivesse outra saída) viajar de carro. Os 4 + equipamentos e merchandising dentro de um carro!!! Alguns dos hotéis que ficamos, sequer tinham estrelas! Diga-se de passagem um deles não tinha nem chave na porta. E meu amigo Neto, baterista dos Magaivers, chegou a indignar-se por que não havia toalha! Baseado numa escala de prioridades falei: Porra Neto, não temos chave na porta e você ainda pensa em toalha?

Os shows vieram, os shows se foram. Tocamos pra 30 pessoas, tocamos pra 300 pessoas, tocamos para até mais de 300 pessoas. E como não posso faltar com a verdade,tocamos até pra 3 pessoas! Sim, amigos, depois de 8 anos, 300 shows eu me vi diante da insólita situação de tocar para 3 pessoas! E o mais bizarro é que dentro da proposta e do espírito reinante, conseguimos achar diversão naquilo. Uma outra lição importante que aprendi é que a estrada é como uma grande gangorra, e aproveita mais quem conseguir se manter em equilíbrio por mais tempo. No final das contas, tudo vira estória. E foi essa estória do dia em que toquei para 3 pessoas que me vi contando outro dia para um grande amigo meu, músico, dono de algumas boas estórias vindas da estrada.

- Porra cara, acabei de voltar de viagem ! Como sempre um sonho, mesmo tendo comido em alguns dias o pão que o diabo amassou.
- Sério? Como assim?
- Fiz um show para 3 pessoas. 3 pagantes num dia em que toquei por bilheteria (dando risadas)
E foi então que ele rebateu minha estória como num jogo de supertrumpho, contando sobre o dia em que ele tocou num bar em que havia apenas um gato! Na platéia, nao se via nada, apenas um gato!